segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Só quem viveu, sabe explicar


Amigos, a manchete é um dos vícios fatais da nossa época. Se um jornal anunciar o fim do mundo em uma coluna, ninguém vai se assustar. Pelo seguinte: - porque o homem só sabe vibrar em oito colunas. E a catástrofe que não venha no alto da página, aberta de fora a fora, perde todo o impacto. É a obsessão da manchete.


E, no entanto, vejam vocês: - a poesia do jornal está, por vezes. Na notícia miúda, no registro pequeno, em tipo liliputiano. Ainda ontem, por exemplo, eu li um simples texto-legenda que é uma preciosidade. Imaginem vocês que o Pedro II ganhou os Jogos da Primavera, a maior olimpíada do mundo! Claro que houve, lá no velho e eterno Colégio, uma euforia brutal.


E o Pedro II resolveu trazer para a rua sua alegria fabulosa. Houve passeata, escarcéu, correrias, o diabo. Amigos, o brasileiro servil teve a reputação de povo triste. E, de fato, o sujeito não dá um passo, aqui, sem esbarrar numa melancolia, sem tropeçar numa depressão. Nas esquinas, nos botecos, há sempre um brasileiro pingando hipocondria. Lembro-me de um turista que perguntava intrigadíssimo: - ‘Quem é que morreu?


De fato, temos por vezes o ar de quem chora um imaginário defunto. Mas se este povo é triste, há uma imensa, jocunda, deslumbrante exceção: - o aluno do PedroII. Tenho um amigo meu que vive rosnando: - Nesta terra, até as cadeiras são neuróticas.

- Ao que eu responderia: - Menos as cadeiras do Pedro II -. Porque, lá, os móveis também são coniventes no humor dos alunos.


Uma das mágoas que eu tenho na vida é a de não Ter sido, na minha infância ou juventude, aluno do Pedro II. Andei por colégios mais lúgubres do que a casa do Agra. Mas há, em mim, até hoje, a nostalgia de não Ter estudado ou fingido que estudava lá. A rigor, não são os professores que me interessam no Pedro II. Nem os seus problemas de ensino. O que me deslumbra no aluno do Pedro II não é o estudante, mas o tipo humano. Ele deve ser um mau aluno (tomara que seja), mas que natureza cálida, que apetite vital, que ferocidade dionisíaca.


Olhem para as nossas ruas. Em cada canto, há alguém conspirando contra a vida. Não o aluno do Pedro II. Há quem diga, e eu concordo, que ele é a única sanidade mental do Brasil. E, realmente, não há por lá os soturnos, os merencórios, os augustos dos anjos. Os outros brasileiros deveriam aprender a rir com os alunos do Pedro II.


Volto ao texto-legenda. Em poucas linhas está descrita a comemoração da vitória. E não se lê, no jornal, uma palavra de simpatia, e pelo contrário: - é evidente a irritação. Quem redigiu a nota está indignado com a euforia total dos estudantes. Mas reparem como o jornal hipocondríaco está sendo bem brasileiro. De fato, nós somos uns ressentidos contra a alegria, e repito: - a alegria ofende e humilha os impotentes do sentimento.


Por fim, o colega chama os meninos de ‘pequenos vândalos’. Não se pode desejar uma incompreensão mais nostálgica. Por que ‘vândalos’? Porque andaram quebrando umas cadeiras e, sobretudo, porque andaram chupando chica-bom sem pagar. Vamos admitir, risonhamente, que é lamentável. Mas nunca houve um 7 de setembro, ou um 14 de junho, sem atropelos inevitáveis. Os apertões cívicos derrubam senhoras, asfixiam menores. E nas procissões há quem bata carteira, ou atropele, ou desmaie. Vamos concluir que os patriotas e os devotos são vândalos?


Numa terra de deprimidos, o alegre devia ser carregado na bandeja como um leitão assado. E devíamos subvencionar o Pedro II para inundar a cidade, diariamente, com a sua alegria total, ululante. E vamos arrancar a máscara de nossa hipocrisia. Pois, no fundo, invejamos amargamente a garotada que lambeu de graça tanto chica-bom.”

(Nelson Rodrigues – Diário Carioca, 29/9/1963)





Só quem conhece o verdadeiro significado da Tabuada, sabe porque lágrimas caem nessa hora...

E muitas mais vão se derramar no Reencontro do ex-alunos da Unidade São Cristóvão dia 12 de Dezembro, Sábado.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

#musicmonday

"Dame" (Carlos Lara)
Intérprete:... adivinha
Faixa do CD Celestial


Em teus lábios há palavras que acariciam até a alma
E em teus olhos um blue que me enche de luz quase
como
um carma.

Em teus lábios há indicios de que existe o paraiso
E em tua pele há um mar que quero navegar sem um rumo
fixo.

Minha filosofia e minha religião
É buscar viver em teu coração
Minha filosofia e minha religião
É a teoria de obter teu amor

Me dê uma oportunidade
Me dê um sinal
Me dê um pouco de fé
Me dê tua primeira vez
Me dê tudo o que você tem

Me dê uma oportunidade
Me dê um sinal
Me dê tua solitude
Me dê tudo o que você tem

Me dê um pouco mais de você
Para te dar mais de mim
Me dê um pouco mais de você
Me dê um minuto para te fazer feliz


Em teu abraço encontro o rumo para desafiar ao mundo
E tua voz me faz bem quando alguém é cruel
Tudo é mais seguro

Em teus lábios há indicios de que existe o paraiso
E em tua pele há um mar que quero navegar sem um rumo
fixo.

Minha filosofia e minha religião
É buscar viver em teu coração
Minha filosofia e minha religião
É a teoria de obter teu amor

Me dê uma oportunidade
Me dê um sinal
Me dê um pouco de fé
Me dê tua primeira vez
Me dê tudo o que você tem

Me dê uma oportunidade
Me dê um sinal
Me dê tua solitude
Me dê tudo o que você tem

Me dê um pouco mais de você
Para te dar mais de mim
Me dê um pouco mais de você
Me dê um minuto para te fazer feliz






quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Passos lá fora


Você me ligou dizendo estar à caminho. Eu fiquei feliz e em pânico ao mesmo tempo. Claro que eu queria que você estivesse aqui, mas já são quase 10 da noite e eu não permitiria que você viesse de tão longe a essa hora. Eu pedi que você ficasse. Poderia vir amanhã. Desliguei o telefone e ouvi o barulho do portão seguido por passos no corredor. Sorri e pensei por que você disse pra mim que estava longe se já hava chegado. Imaginei sua expressão ao entrar e calculei quantos beijos conseguiria te dar no segundo em que abrisse a porta. Então os passos foram se distanciando. Não era você que chegava. Podia ouvir as chaves do vizinho abrindo a porta. Podia sentir meu sorriso desaparecendo. Podia ver a solidão chegando outra vez ao mesmo tempo que a alegria se esvaia. Por que você estava tão longe? Por que não foram seus passo que ouvi no corredor? Mas agora não importa. Você dormirá na companhia de amigos. Eu continuarei sozinha. Apenas esperando que sejam seus os passos lá fora.

Dia de chuva




Meio deitada na cama em uma posição estranha, vestindo uma camisa bem maior que ela com o computador no colo, lendo blogs alheios e ouvindo músicas melancólicas decidindo se veria agora ou depois o episódio baixado daquela série de TV que namorado a apresentou. Sim, ela tem namorado, mas sua aparência é de quem está numa fossa sem fim. Não que ela esteja infeliz com ele ou nada disso. Apenas que ele não está ali com ela, porque ela precisa estudar naqueles livros que estão espalhados pela cama bem ao seu lado, mas ela não tem ânimo de ler. Deveria ter saido há uma hora mas está aqui. O dia hoje era pra ser produtivo, mas tomou outro rumo. Não está sendo inútil porém, e sim proveitoso. Pra muitos, dá no mesmo. Pra ela, há uma grande diferença.

Acordou e antes mesmo de tomar café tratou de limpar a casa. Largou na metade, mas se sentiu satisfeita. Chegou a pegar uma revista pra ler, mas logo trocou por um livro, já que ela precisava mesmo estudar. Nem chegou a abrí-lo. Tratou de comer alguma coisa e enquanto comia resolveu baixar o episódio do tal seriado. O download terminou assim que ela pretendia sair, já quase pronta. Foi então que a chuva caiu e levou junto com ela para o ralo o fiozinho que restava da sua vontade (ou obrigação, não se sabe) de sair. Decidiu que ficar em casa seria mesmo muito mais útil que sair para ouvir duas mulheres dizendo coisas que ela já sabia, e outra não dizendo nada, apenas lhe mostrando como se faz algo que ela nunca mais irá repetir.

Mas em vez de fazer as coisas úteis que tinha em mente, se largou na cama ainda rodeada de livros, pôs o computador no colo resolvendo depois de muito zanzar por blogs alheios que finalmente veria o episódio. Mais tarde estudaria e cumpriria suas obrigações... e à noite, só o que lhe resta é esperar que o amanhã chegue, trazendo com ele mais ânimo acompanhado da certeza de que teria mais alguém ali quando ela chegasse.

domingo, 18 de outubro de 2009

Água Contida

Eu, chorando
Com essa cara toda amassada
Com esse olho em carne viva, retalhada
E esse nariz que não pára de escorrer

Eu, chorando
Tão previsível quanto areia no deserto
Mais patético sem ninguém por perto
Tão imenso que não dá mais pra conter

Então sai, deixa correr
Toda a água contida
Então sai, deixa correr
Toda mágoa velada é água parada
E uma hora transborda

Você pode não entender se às vezes fico pelos cantos
Um tanto quieta, recolhida, mergulhada no meu pranto
É que ele me liberta na hora
No momento em que eu boto pra fora
O que já não me serve vai embora
E assim, eu fico leve

Pitty