Estava chateada com uma nota que tirei e caminhava de cabeça baixa, pensando. O que eu fiz de errado para aquela professora de história me dar apenas 6,5 numa prova tão boa como aquela? E olha que foi a melhor da sala! Ela me deu os parabéns! Parabéns por uma nota que ela julgava ótima. Eu, insuficiente.
Cheguei ao ponto de ônibus e fiquei com isso na cabeça, achando que era o pior problema do mundo! Até que eu ouvi um motorista discutindo com um garotinho. Devia ter uns 8 anos. Tentava de todo o jeito que o motorista abrisse a porta de trás pra ele, mas ele não podia, pois o menino estava sozinho. E o menino então começou a chorar em desespero:
- Mas cadê a minha mãe?!!! Pra onde ela foi??!!!
Eu fui na direção do menino e o abracei como se fosse o meu filho. O desespero dele despertou em mim um instinto de proteção que eu experimentei poucas vezes. Nisso o ônibus foi embora. Eu perguntei a ele aflita o que havia acontecido, se a mãe dele estava naquele ônibus, e ele disse que não. Ele não sabia onde estava a mãe.
- Eu estava do lado dela e me virei. Quando virei de novo, ela sumiu! Agora eu preciso pegar o 472 e ir pra casa da minha avó. - disse chorando, gritando, desesperado.
Parece que era o único lugar onde ele sabia ir sozinho. E quando se perdeu da mãe, sua primeira reação foi tentar pegar o ônibus em direção a um lugar conhecido.
- Você sabe chegar lá? Então eu vou te levar. - eu disse.
Fiz sinal para um 472 que passava naquela hora. Expliquei rapidamente a situação ao motorista que nos abrigou e ofereceu o celular para que eu tentasse ligar para a mãe de Pedro, que ainda nervoso, começara a falar sem parar. Ninguém atendia do outro lado da linha. Fiquei imaginando o desespero de Paula, procurando seu filho.
Pedro disse que estudava no Colégio Brasileiro. Bem em frente ao meu colégio e muito perto do ponto de ônibus onde estávamos. Se soubesse dessa informação antes, eu o teria levado para a escola, que além de mais perto, tem os contatos da família dele. Mas agora já não havia mais como voltar. Como não conseguíamos falar com a mãe do menino, resolvi ligar para a casa da avó e avisar que Pedro estava a caminho e pedir que tentassem localizar sua mãe. Chegamos à Central do Brasil e Pedro pediu que o motorista parasse. Descemos e atravessamos algumas ruas. Ele não tinha muita certeza do caminho, o que me deixou aflita. Se nos perdêssemos, não teríamos como ligar para avisar, já que no ônibus, usamos o celular do motorista, o meu não tinha créditos. Felizmente, encontramos o avô dele no caminho. O menino correu para abraçá-lo e o senhor, enquanto apertava o menino contra o peito, segurou minha mão com força emocionado, em agradecimento. Ele não conseguia falar. Eu sorri, me virei, e fui embora. Não havia o que dizer. Meu papel estava feito e eu torcia que Paula soubesse logo que seu filho estava bem.
Aquilo tudo durou cerca de meia hora. Tudo aconteceu tão depressa, mas ao mesmo tempo, eu parecia conhecer Pedro, sua mãe e seu avô desde sempre, pois o desespero de todos eles se ligou ao meu de forma que parecíamos um só.
Segui meu caminho ainda atordoada, pensando em tudo que se passou naquela quarta-feira estranha. Quando cheguei ao pré-vestibular, todos estavam comentando assuntos normais, rindo e vivendo normalmente. Por um milésimo de segundo me perguntei porquê o mundo todo não estava preocupado com Pedro como eu estava. Depois me lembrei que enquanto muitos sofrem, os outros não fazem nem ideia.
Nunca cheguei a conhecer Paula. Nunca mais vi Pedro e seu avô. Nunca mais pensei naquela nota de História.
Ps: Esta história aconteceu de verdade, no ano passado com esta que vos tecla. É um momento que nunca vou esquecer.